O testemunho do colaborador revela, de forma muito clara, um dos grandes paradoxos do recrutamento atual. Quando afirma que “eles querem muito saber de soft skills, mas não é algo que dê para mostrar”, sobretudo no contexto do currículo, expõe uma tensão real entre aquilo que as empresas valorizam e aquilo que os instrumentos tradicionais conseguem avaliar. A empregabilidade não depende apenas do conhecimento técnico, mas também de atributos pessoais e interpessoais como adaptabilidade, comunicação e autonomia (Monteiro, 2025). No entanto, grande parte das candidaturas passa por sistemas automatizados que privilegiam palavras-chave e estrutura formal, dificultando a valorização de competências comportamentais mais difíceis de quantificar (Pramod, 2025). Assim, o desafio não está apenas em possuir soft skills, mas em saber comunicá-las estrategicamente. Apesar da postura proativa demonstrada, o testemunho também permite identificar possíveis fragilidades típicas de quem está a iniciar o seu percurso profissional. A própria afirmação de que é difícil “mostrar” soft skills pode revelar alguma limitação na capacidade de traduzir experiências em evidências concretas. Competências comportamentais devem ser demonstradas através de exemplos específicos, resultados alcançados e situações práticas, e não apenas mencionadas de forma genérica. Assim, mais do que reconhecer a importância das soft skills, torna-se essencial saber estruturá-las e comunicá-las estrategicamente.
Essa dimensão estratégica torna-se ainda mais evidente quando o entrevistado refere que “fui-me informando um bocado, LinkedIn, YouTube, também, para ver como é que funcionava um bocado o mundo das auditoras”. Esta atitude demonstra iniciativa e consciência de que candidatar-se não é um ato isolado, mas um processo que exige preparação e conhecimento do setor. A construção de uma identidade profissional sólida (personal branding) implica planeamento, diferenciação e alinhamento com as exigências do mercado (Almeida, 2024). Informar-se sobre a área, compreender a cultura organizacional e adaptar o discurso à realidade da empresa são sinais claros de maturidade profissional e de empregabilidade disposicional. Além disso, embora o colaborador tenha recorrido ao LinkedIn e ao YouTube para se informar, essa preparação pode ter sido mais informal do que estruturada. A consulta de conteúdos online é positiva, mas, se não for acompanhada de reflexão crítica e aplicação prática, pode não ser suficiente para garantir um desempenho diferenciador.
No momento da entrevista, essa preparação assume um papel decisivo. Quando o colaborador afirma que “a preparação é a chave e saber como é que o processo de recrutamento se vai realizar, é mais fácil preparar”, reforça a importância de antecipar perguntas, conhecer a empresa e estruturar respostas com intencionalidade. A entrevista não é apenas uma conversa; é um momento de avaliação intensa onde clareza, confiança e coerência podem definir o resultado.
Por fim, ao abordar a integração na empresa, o colaborador descreve que “nos primeiros meses é tudo novo (…) conseguir encontrar o ritmo da empresa e os processos” constitui um dos principais desafios. Os primeiros meses são críticos para a adaptação, socialização e consolidação do sentimento de pertença organizacional. Um processo de integração estruturado influencia diretamente a satisfação e o compromisso com a organização. Além disso, o apoio de colegas e superiores é fundamental para reduzir a ambiguidade inicial e facilitar a construção da identidade enquanto membro da organização.
Importa reconhecer que, sendo um profissional em início de carreira, é natural que o colaborador ainda revele margem significativa de aprendizagem e consolidação de competências. A sua experiência demonstra consciência das exigências do mercado e iniciativa na preparação, mas também evidencia algumas fragilidades típicas de quem está a dar os primeiros passos no contexto organizacional, nomeadamente na forma de estruturar e comunicar estrategicamente as próprias competências. A trajetória descrita não reflete um percurso perfeito, mas sim um processo evolutivo, marcado por tentativa, erro e aprendizagem, que é, na realidade, representativo da experiência de muitos jovens na transição para o primeiro emprego.